A moda e as mulheres no estudo do IPEA


Não há como falar de moda e de comportamento e não ressaltar o estudo revelado pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – na última quinta-feira, dia 27 de março. Segundo o órgão, a grande maioria dos brasileiros acredita que a roupa e maneira como uma mulher se comporta podem justificar atos de violência contra a mesma.

65% dos entrevistados pelo IPEA concordaram com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Para a maioria dos que responderam a pesquisa, roupas curtas e “comportamento inadequado” incitariam agressões, verbais ou físicas. Para Leonardo Sakamoto, jornalista, doutor em Ciência Política e professor na PUC-SP, “Quem se assustou com isso não conhece o país em que vive”. A pesquisa, que gerou grande polêmica, repercutiu em jornais, revistas, telejornais, mídia online e offline.

Não tardou para que nas redes sociais surgissem manifestações em favor das mulheres. Nana Queiroz (28), jornalista e escritora, tomou a vez com a campanha “Eu não mereço ser estuprada”. Nana pediu que as pessoas interessadas fotografassem a si mesmas, nuas ou não, com a frase em cartazes ou escrita em seu próprio corpo. Outra hastag que ganhou um alto alcance de circulação foi #eusouminha. A campanha deu origem a uma fotogaleria no Tumblr, eusouminhasim.tumblr.com, seguindo a mesma “linha editorial” sugerida por Nana – que chegou a receber ameaças de estupro nas redes sociais. As cantoras Valesca Popozuda e Pitty também aderiram aos protestos.

Aproveitando o momento de discussão e reflexão, a ONG africana POWA (People Opposing Women Abuse) fez uso da publicidade inteligente e lançou uma campanha anti-estupro. Páginas duplas, um pouco coladas, mostram as pernas de uma mulher. O leitor tem de forçar a página para ver a mensagem “Se você tem que forçar, é estupro”.

Nessa segunda-feira (31), outra polêmica envolvendo o estudo se popularizou. Para o jornalista Felipe Moura Brasil, da Veja, a pesquisa que coloca as mulheres no centro da discussão é uma jogada estratégica do atual governo. Para Felipe, vender a imagem da mulher como vítima pode funcionar em favor da presidente Dilma Rousseff, e bloquear a imagem (e a divulgação) de outros escândalos do governo. Felipe ainda aponta para as estreitas relações políticas entre o IPEA e o governo atual. A pesquisa ainda teria desvios metodológicos, perguntas feitas estrategicamente para confundir os entrevistados e, também, teria omitido partes fundamentais de seu conteúdo.

Ainda que o estudo seja tendencioso e sua divulgação uma ação política, ou ainda que sua contestação seja oblíqua e superficial, é de grande valia a reflexão sobre o comportamento e a moda como veículos que incitam violência, verbal ou física, contra mulheres. Talvez, pela cultura brasileira de querermos achar sempre um culpado, acredite-se que uma peça de roupa tenha tamanho poder. E não há como falar de moda e de comportamento e não ressaltar que qualquer campanha em prol das mulheres, seja em ano de eleição ou não, é sempre boa ação.

Fonte da imagem: elaboradora pelo autor.

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