Hipster da ostentação


Roupas de brechó, óculos modelo wayfarer, barba e tatuagens. Eis os quatro elementos essenciais ao homem hipster. Jovem de classe média, o hipster busca na subcultura elementos para afirmar sua masculinidade e virilidade, como os pêlos no rosto. Este é o seu passe mágico para entrar no grupo. Mas, e quando a mãe natureza não ajuda e sua barba é rala e espaçada? Como resolver?

Segundo matéria da rede de notícias BBC, homens entre 20 e 30 estão ganhando espaço no mercado de implantes de pêlos faciais - e o pedido dos clientes é uníssono: barba hipster. O implante de barba já é uma febre entre americanos e europeus, que desembolsam até US$ 8 mil em cirurgias que podem durar até 7 horas.

O que leva alguém a investir tanto dinheiro em nome de um visual pode ser compreendido através de um sentimento simplista: pertencimento ao grupo. É instintiva ao homem a necessidade de sentir-se parte de algo maior e estabelecer relacionamentos com os mais próximos de sua espécie. Nesse contexto, a roupa, em conjunto com a beleza, torna-se um arsenal de símbolos que permite flutuar entre identidades e grupos.

Não faltam publicações, online e offline, sobre hipsters e barbas. Nas redes sociais, a campanha “Faça amor, não faça a barba” promove um novo status para os pêlos faciais, até então associados a um comportamento desleixado e preguiçoso. O artista plástico chileno Fabian Ciraolo aproveitou a estética hipster (e as barbas) e a juntou com elementos da cultura pop. O resultado foi uma série de ilustrações em que personagens icônicos, como Che Guevara, Dalai Lama, Salvador Dalí e até He-man, aparecem vestindo a moda hipster.

Se, para nós, implantar uma barba soa como algo fora da realidade, como soaria para os americanos e europeus a notícia de que jovens brasileiros estão implantando aparelhos nos dentes, sozinhos e por pura vaidade? Segundo o teórico cultural jamaicano Stuart Hall, falecido recentemente e autor de A identidade cultural na pós-modernidade, a lógica é a mesma, aqui ou lá. O desejo de fazer parte do grupo e ser reconhecido pelos outros membros também é a mensagem implícita no chamado “Funk da ostentação”.

E para parecer do grupo vale tudo. Ainda que saibam dos riscos do uso inadequado, os jovens cariocas e paulistas estão febris com o aparelho ortodôntico. Em recente matéria da emissora Rede Globo, adolescentes e jovens aparecem “ostentando” aparelhos comprados em camelôs, colocados em casa por eles mesmos, e cuja manutenção é improvisada com qualquer material, de super bonder até fios de vassoura. A tribo se autointitula como “Famosinhos”.

Como em toda composição social, os grupos precisam de líderes, objetos de sua admiração. Do lado de cá, o “Funk da ostentação” é calcado na figura de MC Guime, o hino é Ah lelek e o barbudo hipster é retratado através do modelo Mateus Verdelho. Do lado de lá, o hino da moda hipster é Thrift Shop, da dupla norte-americana Macklemore e Ryan Lewis.

Logo, hipsters e “famosinhos” são frutos da mesma premissa: o multiculturalismo tribal contemporâneo. E para pertencer a uma dessas (e de outras) tribos, os indivíduos estão dispostos a colocar em risco sua saúde e a gastar muito dinheiro naquilo que acreditam ser seu passe mágico de entrada no grupo, seja uma barba ou um aparelho.

Fonte da imagem: elaborado pelo autor.

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